quinta-feira, 28 de outubro de 2010

confissão

A primeira vez que me disseram que havia algo de autodestrutivo em mim achei graça, confesso.
Ainda que já tivesse vivido grande parte de tudo aquilo que hoje me é insuportável e caminhasse as mesmas ruas fedidas a hipocrisia da cidade, ainda não me dera conta do quanto me sentia perfurado pelos pares ao meu redor: a juventude burguesa a qual pertenço, seus modelos e classificações. A criação deles, que também é a minha, os valores aprendidos, compartilhados e, com sorte, descartados. Todo o controle, o envenenamento, e o julgamento cotidiano. Implacável julgamento que nos impomos a todo instante que fazia minhas entranhas se retorcerem como uma alma torturada e sem salvação.
Mas a idéia de que havia algo de autodestrutivo em mim, de alguma forma ainda soava engraçada.
Até que o conjunto de contradições que nos compõem, e compõe a mim, me abateu de súbito. Por um lado - e este lado se traduzia em minha formação de cientista social - me fascinavam os seres humanos, suas manifestações e construções de sentidos. Por outro, tudo neles me afastava em direção à solidão, temível espectro que passei a combater com a adorável companhia de senhores tais como Albert Camus, Kierkergaard e Hermann Hesse, todos muito sábios, e também já mortos há pelo menos meio século.
Foi quando comecei a perceber que o mais terrível não estava a meu redor, mas dentro de mim.
Eram todos os meus valores conflitantes, e visões de mundo constantemente avariadas pelo cansaço, e cada uma das percepções empiricamente testadas que eu projetava nas pessoas que tornava o meio insuportável. Eu os repelia, pois me via em cada um deles. Uma imagem triste e retorcida do mais puro eu.
Foi aí que a idéia anunciada, outrora engraçada, se tornou incômoda no âmago do que eu sempre imaginei ser. De modo que, parafraseando alguém que já nem me lembro quem, posso dizer que encontrei o abismo: está em mim.
E a partir de então comecei a detestar aquele pseudo-intelectual autodestrutivo que lia Sartre no metrô, cuja face idêntica à minha avisto constantemente pela janela espelhada da composição.
A face que me persegue cotidianamente e que, temo, não me abandonará jamais.

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